segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Furdunço:duas preocupações


O furdunço é um dos eventos mais maravilhosos que surgiram nos últimos anos. Consegue unir: nostalgia sonora, modernidade, tranquilidade, aglutinação de famílias inteiras e muita festa.

Em sua 4ª edição  não foi diferente, porém, com duas enormes preocupações:

1º A participação do cantor Leo Santana destoa completamente da proposta do evento. Sua música é exclusivamente comercial e já tem espaço demais para sua manifestação. No carnaval propriamente dito é que é seu habitat pois cabe tudo mas no furdunço pode está dando início ao fim prematuro. Abre a porta para ano que vem participar, Igor Kanário, Saydibamaba, Pablo, Silvano sales, depois jorge e Matheus...e ai, o furdunço vira uma extensão do carnaval e os camarotes passam a se organizarem a partir dele. Já imaginaram? O furdunço com camarote? Patético. Por favor organização, nada contra o artista mas ano que vem bota Léo não ok?

2º Tem aparecido pequenos grupos de cordas tentando se individualizar num ato violento à proposta da festa. Ontem o trio Armandinho, Dodô e Osmar que vem trazendo pra avenida a campanha de que não precisamos de corda e um bloquinho da Skol numa cena inconveniente na frente deste trio o que recebeu todo repúdio do cantor André Macêdo. Me parece que estas pessoas tem necessidade da hipervisibilidade, a exibição pura e então dou-lhe duas sugestões: peçam a prefeitura a liberação pra fechar a estrada velha do aeroporto e lá coloquem suas cordas, contratem seus trios e se esbaldem numa festa somente de vocês mas pode aproveitar também e, entre o cristo e o morro do gato, possui um morro imenso cheio de gravatás então podem sentar ali com roupas bem vistosas pra que todo mundo os visualize. A prefeitura pode combinar com a PM que, nestes caos, sumariamente esta possa levar tesouras e cortar sem nenhuma conversa prévia, ahhhh, tudo tem um limite.

Fora isso, ta de parabéns a ideia da festa e também a organização e ontem não foi diferente:
Lucas Di fiori, não o conhecia e tem um som muito bom
Flor Serena e a rural elétrica levando o forró pra avenida de forma autêntica
Armandinho, Dodô e Osmar dispensa qualquer comentário
Luciano Calazans um show a parte se ratificando como um dos melhores baixistas do País
Vitrola Baiana espetacular com a presença marcante de Felipe Guedes, um instrumentista de grande porte de nossa nova geração de músicos
Banda Eva nos ofereceu alegria em ver a multidão que o seguia num processo de retomada, parabéns
Alexandre Leão com uma sonoridade e repertório de causar inveja produziu ontem uma das melhores apresentações das 4 edições do furdunço, sem dúvida alguma
Alavontê e Baiana System também dispensam comentários porque são apoteose
Agora muito particular, foi gratificante e muito emocionante poder ver de perto o som de Dionorina, lágrimas rolaram de emoção.
E tantas outras atrações que fizeram uma festa maravilhosa
Agora, organização? Veja pra mim essa questão das cordas que estão crescendo e também deixa Léo só no carnaval mesmo ok? 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Réveillon de Salvador: uma sugestão

         



 Sem entrar nos méritos de qualidade musical nem tampouco do montante investido na festa, creio que o evento precisa ganhar outros contornos em sua estrutura.

 
Réveillon de Salvador tem o “status” de referência nacional, festa popular e vitrine, principalmente para os artistas, assim como é o nosso carnaval. Acontece que a prefeitura municipal, que capitaneia o evento, poderia aproveitar a oportunidade e estabelecer o mesmo como o palco de difusão dos artistas locais.
 
A “Cidade da Música” precisa ser vista e valorizada como tal. A Bahia, o Brasil e o mundo precisam saber que aqui temos boas referências no blues, rock, samba, reggae, mpb, jazz, salsa e, claro, no axé. Seria importante para todos nós vermos artistas como Lazzo Matumbi, Mariene de Castro, Álvaro Assmar; Riachão, Raimundo Sodré, Orquestra Neojibá, Alexandre Leão, Vânia Abreu, Roberto Mendes, Márcia Short, Simone Moreno, Márcia Castro, Muzenza, Rumpilezz, Adão Negro e tantos outros.
 
Muitos desses artistas estão relegados aos guetos musicais, sem vitrine. E vários continuam desprovidos de incentivos governamentais, itens que podem e devem fomentar esta economia artística, favorecendo o empoderamento cultural dos mesmos.
 
Portanto, o evento pode ser melhorado em duas dimensões. Primeiro, com uma grade inclusiva desse segmento de artistas baianos. Segundo, no aspecto físico, ao invés de uma concentração exclusiva na Praça Cairu (Arena Daniela Mercury), pode-se pulverizar os shows nos diversos bairros da cidade, criando inclusive novos batismos de circuitos, referendando figuras representativas de cada localidade.
 
Artistas de grande porte que por aqui passaram não baianos, já galgaram seus espaços nas rádios e TVs do país inteiro. Quem agora carece de visibilidade são os nossos. E mais, todos eles já estarão aqui no carnaval. É vitrine demais para um número reduzido de profissionais.
 
Que se pense nesta ideia: por um réveillon como palco de divulgação do que Salvador e a Bahia também têm.
 
* Welber Santos é Mestre em educação, produtor de eventos e proprietário do espaço de shows Axé Vavá na cidade de Ipirá (BA)

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notíciashttp://www.bahianoticias.com.br/artigo/857-reveillon-de-salvador-uma-sugestao.html

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

AXÉ: renovação para quem?

"O Axé precisa se renovar!" Isto já virou um  mote mas fico a me peguntar até que ponto esta renovação significa  e  até que ponto  não se trata de uma tentativa de justificação, explico:
Quando se pede pra alguém ou algo se renovar  é porque está estático e portanto, precisa inventar  algo novo, precisa mudar, alternar, metamorfosear...O Axé, enquanto "modus" musical tem estilo próprio caracterizado exatamente pela heterogeneidade, fusão de ritmos mas com determinadas características peculiares: a evidência da percussão, muito swingue e letras que digam algo, do mais simples  até questões de afirmação de identidade passando por questões sociais e, claro, de amor tudo com muita poesia.
É bem verdade que quando se fala que o carnaval de Salvador tem momentos que está chato é muito mais por uma estrutura estática do que necessariamente pelo aspecto musical pois se sabe que todo sábado de carnaval às 15:33 o trio tal vai estar em tal local tocando a mesma música de 8 anos atras.
Quando se pede e exige mudança no Axé é preocupante no sentido de que este pedido acaba produzindo desprezos. Renovar o Axé seria passar a tocar um "sertanejo" axezado? Seria arrochar o Axé? Seria em ultima instância tirar sua identidade e se adaptar docilmente ao que se toca  nas rádios no momento?
Há um desprezo literal  a Luiz Caldas que produz 1 cd por mês há dois anos seguidos, despreza Ivete Sangalo, Tomate, Gerõnimo, Olodum, Ilê Ayê, Muzenza, Bankoma, Saulo, Alavontê, Daniela Mercury, Carlinhos Brawn, Bel Marques, Magary Lord, Banda Eva, Timbalada
que vêm produzindo belezas musicais todos os anos.
Por outro lado, este pedido seria uma tentativa  que os meios de comunicação baianos encontraram para justificarem sua covardia em peitar a indústria fonográfica e mostrar que na Bahia se ouve do pagodão, arrocha , rock e sertanejo mas que aqui é sim, também, a Terra do Axé e com muito orgulho.
Toda mudança permanente é sempre bem vinda mas isso , boa parte de nossos artistas do Axé estão fazendo, mas uma mudança para se adaptar cegamente a um determinado mercado matando nossa musicalidade sem dúvida não é desejável. Reflitamos!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

AFINAL, QUAL A MÚSICA DO CARNAVAL?

De uns anos pra cá, essa coisa de escolha da música do carnaval tem induzido vários artistas a se organizarem exclusivamente para este fim: ter sua música escolhida em 1º lugar da festa de momo!!! Uns inclusive estão numa verdadeira obsessão que vai desde simulação de enfermidades até a indução das pessoas com outdoors ostensivos com os dizeres: " música tal, a música do carnaval..."de forma bem padronizada.
Primeiro é preciso pensar sobre qual o significado deste título. Assim, algumas questões considero pertinentes: quem promove esta titulação? quais critérios são utilizados? quais interesses mercadológicos o sustenta? existe uma indução pré-carnaval para esta eleição?....
Segundo, a impressão  que se tem é que as rádios e tvs fecham um acordão com as gravadoras e elegem previamente as possíveis músicas "do carnaval" e não há qualquer possibilidade de se conhecer outras canções relegando ao ostracismo grandes artistas, grandes músicas e negando a todos nós a possibilidade de vivenciarmos a diversidade musical.
Terceiro, com estes ingredientes de indução em busca do "santo Graal"(a música do carnaval), homeopaticamente vai matando o que há de mais salutar na festa: a multiplicidade, mistura e heterogeneidade dsa músicas criando uma espécie de "Mecdonaldização" musical em que  se propõe a fazer algo padronizado. Aqui, no carnaval de Salvador, cabe todo estilo musical e assim já presenciamos música clássica em pleno carnaval, rock, maracatu, sertanejo, arrocha, salsa, forró....de forma mesclada e não de forma induzida, cada um entendendo seu espaço sem buscar exclusividade compondo assim uma  das belezas da festa. 
Desta forma, nos resta refletir que a ultima coisa  que importa no carnaval, é a escolha da música; é identificar que esta eleição é totalmente insignificante, irrelevante, atendendo apenas a apelos mercadológicos. O que buscamos no carnaval é a alegria, é a inversão do cotidiano, a descontração, o dançar despadronizado e, claro, buscamos curtir "as músicas" do ou dos carnavais!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

REFLEXÃO DE PROFESSOR!!


Hoje se comemora o dia do professor, nada mais louvável!
Durante todo o dia ouvimos felicitações dos alunos, colegas de profissão, colegas de outras profissões e para isso não tem preço que pague este reconhecimento sincero e afetivo!
Mas também ouvimos e vimos em vários meios de comunicação a mesma postura indecente e falsa onde nos apresenta como peça fundamental da sociedade, como redentor do país, como uma profissão sacerdotal, enfim, um dom coadunado com uma missão quase que divina.
Este tipo de representação de nós professores e professoras torna-se falsa quando despolitiza nosso posicionamento social enquanto profissional; quando não nos  apresenta enquanto um ser humano antes da profissão e portanto, passivo de erros, acertos, dores e alegrias; torna-se falsa ainda quando sinaliza apenas hoje as carências de nossa profissão enquanto coitadinhos do sistema mas em suas edições diárias não há um único espaço exclusivo dedicado à educação assim como existe um espaço para a política, economia, fuxico da vida alheia e principalmente um grande espaço para a violência.
Não gostaria de ter viso hoje aquelas reportagens em que aparece um professor que nega sua vida própria em razão de ser tornar o  herói da nação quando deveria ser visto como uma  vergonha nacional pois em um país como o nosso é inadmissível termos professores que ainda  tenham de passar por situações desumanas para exercer sua digna função.
Gostaria sim de ter visto hoje algumas notícias deste porte :
" Congresso aprova anistia do Imposto de Renda para a classe docente"
" Ensino fundamental agora foi federalizado"
" Todo professor terá direito a um kit livro por semestre contendo livros técnicos e romances, poesias..."
" Formação docente agora será anual com início, meio e fim no ano em curso e não mais formações de fins de semana sem qualquer continuidade"
" Está terminantemente determinado que qualquer reforma em todas as escolas só poderá acontecer no período de férias e jamais com o ano letivo em curso"
" Escolas públicas terão investimentos no mesmo grau que os estádios para a copa criando um 'padrão' nacional de qualidade com carteiras, salas climatizadas, materiais...dignos de um trabalho docente decente"
Ai como eu queria ver isto neste dia de hoje!!
Por enquanto, fica a sugestão para os meios de comunicação criarem um minimo de espaço diário para que possamos expressar também nossos feitos e não esperar que um muro desabe sobre um professor para podermos aparecer ou ainda esperar a cada ano o 15 de outubro!

domingo, 6 de setembro de 2015

TRÂNSITO DE SALVADOR: QUESTÃO DE IDENTIDADE!



O problema do trânsito em Salvador é uma questão de identidade! Isso mesmo! Não é questão de novas vias, novos semáforos, transporte alternativo...somente!
Identidade tem o sentido aqui de: quem sou eu? o que é de minha responsabilidade? o que posso ou não fazer?  Vejamos.
Para ilustrar minha afirmativa falarei sobre 4 sujeitos do processo: motorista de ônibus, motorista de carro de passeio, taxistas e motoqueiros.
Arrisco-me a afirmar que mais de 90% dos motoristas de ônibus não têm ciência de que o serviço que eles prestam é um serviço público. Assim, eles param nos pontos quando estão afim, dirigem o veiculo com uma velocidade que parecem que querem bater algum record; se aborrecem quando o cidadão dá a mão quando o ônibus já está bem próximo do ponto, dirigem como se o carro fosse particular de pequeno porte e sem nenhum compromisso ou responsabilidade pública.
O motorista de carro de passeio é muito ilustrativo:  em seu carro ouvindo o rádio ele reclama de tudo: do governo, do motorista de ônibus que não o deixou  passar, do motoqueiro...mas é incapaz de  frear 2 a 4 segundos pra deixar o outro motorista passar; pra ele as setas não existem ou entende ao contrário; quando alguém sinaliza que vai entrar à direita ao invés dele reduzir ele acelera, exatamente pra não deixar a pessoa passar; este motorista reclama do número de radares na cidade porque ele "precisa" andar como bem quer e esquece que os radares só existem em função dele pois não respeita as leis de trânsito. E por falar nisso, aqui em Salvador, o cidadão não se arrisca a passar em faixa de pedestre mesmo o sinal estando fechado para os carros. Enquanto  não ver que todos os carros estão parados ele não atravessa pois o risco é enorme de ser atropelado. Ele corta pela direita porque está com muita pressa e segundos depois quando seu colega de trânisto o faz com ele, tadinha da mãe desse rapaz!!!!
Então chegamos aos taxistas! poderiamos chamá-los de uma classe bipolar. No carnaval, eles fazem uma leitura do perfil físico da pessoa e, identificando que é de Salvador fazem de tudo pra não levar pra canto nenhum. O foco é o turista! Após carnaval, não pode ver ninguém coçando a cabeça no meio da rua que já vão parando e levam at na próxima esquina; só faltam servir cafezinho. O taxista se incorporou de um perfil que ele acha que faixa exclusiva pra ônibus se estende também a eles. Se estão levando um "turista" ao aeroporto por exemplo; todos têm de abrir um corredor exclusivo pois o direito é sempre dele passar.
Finalmente, chegamos aos motoqueiros! Por vezes este compreende que sua moto ganhou vida. Então ele passa por cima das passarelas, por cima das calçadas...O motoqueiro acha que o trânsito foi feito em função dele. Então os carros têm de parar para sua senhoria passar, no engarrafamento buzinam de tal forma que a sensação é de que os carros deveriam flutuar para que eles pudessem fazer seu percurso sem perturbação alguma. O motoqueiro deve ter a certeza de que quando foi tirar sua carteira de habilitação estava la no código de trânsito o seguinte parágrafo único: ESTE CÓDIGO NÃO SE APLICA AOS MOTOQUEIROS.
Portanto, se cada agente aqui citado se incorporasse de seu papel no trânsito, a construção de novas vias e transportes alternativos seriam um fantástico complemento  mas não o foco central do trânsito. Talvez fosse mais salutar que os poderes públicos, ao invés de investirem mais em agentes de trânsito e radares, investissem em terapeutas de trânsito a fim de que cada um passasse a compreender mais seu papel e suas responsabilidades no trânsito da cidade.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

POR UMA RESSIGNIFICAÇÃO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA ESCOLA...


( Artigo apresentado no I Congresso de Educação profissional e tecnologias aplicadas do IFBA - Instituto Federal de Educação, ciência e tecnologia da Bahia )
I COEPTEC - 2014

Welber Lima Santos[1]

RESUMO:



PALAVRAS-CHAVE: Escola, Tics, diálogo.


Iniciando algumas inquietações...

Mesmo com todo o avanço no campo das tecnologias da informação e comunicação, e apropriadas pelo campo da educação, ao mesmo tempo em que temos oportunidades maiores na democratização do conhecimento, infelizmente ainda vivenciamos um período de pragmatismos em busca de resultados imediatos,  perdendo ou jogando fora nossa capacidade de reflexão na tentativa de criar alternativas e não de absorver soluções pensados por outrem para as questões que vão sendo apresentadas na vida cotidiana. Fazemos este alerta, pois em nosso artigo não temos qualquer pretensão de oferecer um aparato de metodologias de como incorporar as Tics na escola, mas, apenas, de chamar a atenção desta necessidade apresentando elementos de comportamento das Tics e suas influências  na nossa própria forma de agir em várias situações e assim, enfatizar a responsabilidade da escola nesse cenário à medida que, esta é a instituição, por excelência  educativa, e não pode se eximir de seu papel de, primeiro dar-se sentido e concomitantemente criar as condições necessárias para a formação de uma sociedade mais democrática e reflexiva com os meios de comunicação de forma geral e com ela mesma.


  1. Para que serve mesmo a escola?

Mundanamente tem-se constituído a imagem da escola como a instituição redentora da sociedade, aquela capaz de oferecer as alternativas para as mazelas sociais e assim, esta se incorpora de um aparato de conhecimentos específicos forjando sua própria identidade. Acontece que estes “saberes” atribuídos à escola e difundidos pela escola são quase que identificados como aqueles válidos e não passíveis de questionamentos. A escola é, em síntese, pura racionalidade. Nela, a ciência ganha status de “saber mor”, as ações desenvolvidas giram em torno desse saber científico, e a preocupação maior é o desenvolvimento do campo racional e intelectual dos alunos. Ainda mais quando ganha um grande reforço da mídia, pois,
nos dias de hoje, a mídia (instrumento pedagógico poderoso) oferece uma noção bastante triunfalista da ciência e aqueles que têm limitado acesso ao pensamento crítico (a maioria) acabam por se deixar levar pela convicção de que tudo isso ocorre em um outro mundo, fora deles e da possibilidade de também serem capazes de neles estarem presentes (Cortella, 2003, p. 102).

Neste sentido, podemos mostrar a distância existente entre a escola e o aluno, o indivíduo, a sociedade e a vida; notoriamente, percebemos que, dessa forma, cada dia mais, por um lado, a escola vai se individualizando, criando uma espécie de redoma epistemológica onde os saberes, ditos formais, ali trabalhados cabem apenas a uma parcela de pessoas com determinadas capacidades, competências e habilidades; e por outro, àqueles ditos informais e não-formais, não pertencem àquela instituição, ou melhor, não são validados e nesta negação de saberes uma parcela significativa não se ver pertencente àquela instituição que vai cumprindo um papel de exclusão, pois acaba reforçando a falsa idéia de uma incapacidade cognitiva perante o “saber maior”. Para melhorar compreensão das concepções de escola que estão vigentes, hoje, no meio acadêmico e no meio social, cabem aqui buscarmos diferenciar os três conceitos expostos: formais, informais e não-formais. Para Libâneo (2005), os três conceitos apresentados caracteriza, respectivamente, três modalidades da educação:
A educação informal corresponderia a ações e influências exercidas pelo meio, pelo ambiente sociocultural, e que se desenvolve por meio das relações dos indivíduos e grupos com seu ambiente humano, social, ecológico, físico e cultural, das quais resultam conhecimentos, experiências, práticas, mas que não estão ligadas especificamente a uma instituição, nem são intencionais e organizadas. A educação não-formal seria a realizada em instituições educativas fora dos marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação. A educação formal compreenderia instâncias de formação, escolares ou não, onde há objetivos educativos explícitos e uma ação intencional institucionalizada, estruturada, sistemática.” (p.31).

Então, é preciso apropriar-se desses conceitos que exige um grau de discernimento perante o modo como se caracterizam, distinguem e articulam às suas noções de Educação Formal, Educação Não-Formal e Educação Informal. Pois, as modalidades educacionais distinguem-se em relação à ausência ou presença, em diferentes níveis, de intencionalidade da ação educativa. Pois, de forma geral, espera-se que a escola seja um espaço de democratização de saberes; um espaço onde possa se criar as possibilidades onde o outro possa dizer sua palavra como bem pregava Paulo Freire, é necessário deixar claro que os conhecimentos científicos e historicamente elaborados pela humanidade são imprescindíveis numa formação mais sólida a partir da escola, entretanto, que estes conhecimentos não sejam apresentados como uma verdade absoluta, uma metanarrativa[2], de forma estática, e sim, como um dos campos do saber humano localizado e definido epistemologicamente desde um lugar geográfico-histórico e impregnado de ideologias e, portanto, passíveis de transmutações. Esses conhecimentos devem ser apropriados por todos os alunos a partir de duas dimensões: a dimensão de necessidade de ampliação de conhecimento inerente a cada indivíduo em sua curiosidade, mas também, a necessidade dessa mesma apropriação como uma arma de defesa para quaisquer tipos de tentativa de opressão ou diminuição do outro.
A escola deve ser a instituição que “selecione e apresente conteúdos que possibilitem aos alunos uma compreensão de sua própria realidade e seu fortalecimento como cidadãos, de modo a serem capazes de transformá-la na direção dos interesses da maioria social” (Cortella, 2003, p.16). Necessariamente, tal seleção deverá estar implicada e imbricada com este propósito, pois, desta maneira, o professor irá definir exatamente o tipo de cidadão que se propõe formar. Aqui se evidencia a necessidade de uma negociação não só de saberes, mas, sobretudo, também uma mudança de práticas pedagógicas que sinalizem a complexidade do conhecimento humano não havendo espaço para um reducionismo, ou seja, a eleição de um campo epistémico do conhecimento que esteja acima de qualquer outro. De um lado os professores, gestão e coordenação que pensam a escola exclusivamente sob sua lógica, definindo o seu papel social e assim definem “a priori”, o que deve e não deve ser autorizado a ser trabalhado. A escola deste segmento é aquela em que os alunos “não querem nada”. Por outro lado, os alunos pensam a escola, inicialmente, como um espaço de alegria, criação e aprendizagens, basta imaginar a euforia dos primeiros anos de vida escolar ou, até mesmo, no início de cada ano letivo onde as energias se renovam, porém, depois, observemos um certo desprazer em sua permanência. Por isso,
É necessário que professor e aluno experimentem o labirinto e a complexidade de se trabalhar na singularidade de cada organização/situação e na incerteza do aprender, conhecer e instituir novas práticas e realidades, nos contextos em que participam como parte integrante/integrada, como sujeitos históricos, de autonomia, de co-autoria e de co-responsabilidade ( Lima Jr. e Hetkowski, 2006, p. 41)


            Não havendo uma abertura radical para esta dimensão complexa da realidade, a escola vai (con)vivendo com este ambiente um tanto autoritário pois não há um posicionamento amadurecido por parte de quem deveria (docentes, coordenação e gestão) no sentido de poder criar o espaço de (re)conhecimento dos interesses e inquietações dos alunos. Em nome de um falso manto de unidade, num discurso ocidental “igualitário” que, vem impondo modelos como se fossem os únicos a priorizar apenas o “pensar” em desvalorização, detrimento e aniquilamento das diversas outras formas de saber, de conhecer e de se (re)conhecer no mundo, assim, neste sentido, vai negando as subjetividades ali presentes, um vasto campo de conhecimentos que cada um dos alunos traz em sua bagagem de vida e prontos a serem socializados. Parece-nos que, a escola assim vem se apresentando anacrônica, desconexa, em um descompasso com o cotidiano, vai negando o diálogo necessário à sua própria identidade e, ao fazer isto, vai colocando em dúvidas a sua própria existência pois, quando não há diálogo, não há comunicação efetiva, não há ensino e nem aprendizagem, portanto, questiona-se: qual a razão da existência desta instituição?
            Uma coisa é a escola que aí está posta, vivida; a outra é a escola que forjamos nas utopias e é aqui que depositamos nossa energia, uma vez que é na esperança, conjugada com a luta cotidiana, com a negação do pensamento único e com a proposição de ações práticas, que possamos ir fomentando as possibilidades possíveis da criação de uma escola que seja capaz de socializar a própria vida. Porque, ainda que, na tensão existente no cerne escolar, haja algumas práticas pedagógicas desarticuladas com o cotidiano, a escola, enquanto instituição formal de ensino, não deve estar, como um todo, desconectada da realidade vivencial de cada aluno, professor, gestor, coordenador, funcionário e da sociedade de modo geral.

  1. Para que serve mesmo as Tecnologias da Informação e Comunicação (Tics)?

            Certamente não é nossa intenção realizar um levantamento ou enumerar uma série de fatos que atestam a influência das Tics em nossas vidas. Compreendemos apenas ser necessário apresentar uma discussão que possamos refletir e nos sintonizar no que diz respeito das sutilizas de que elas se utilizam para efetivar seus propósitos e assim acabamos por denunciar a não neutralidade de suas intenções e do campo político-ideológico que permeia tais escolhas, embora tentem transparecer exatamente um modo imparcial de lidar com a realidade. Ainda que, seja importante reconhecer e discernir a necessidade da apropriação, por parte das escolas de forma geral, das especificidades das suas linguagens e dos instrumentos midiáticos incorporando-os na dinâmica curricular na intenção de reduzir a distância existente entre a escola, a vida midiática[3] e a vida cotidiana. Porém, é preciso estar claro que,
...a presença dos recursos tecnológicos é indispensável, mas desde que os mesmos possam ser entendidos e explorados com esta ênfase na criatividade e na metamorfose (mudança, transformação de si e do contexto local, atualização histórica e contextual, etc.) em um processo permanente e complexo de afirmação da condição humana e da humanização do mundo (Lima Jr. , apud Lima Júnior e Hetkwisk, 2006, p. 34)

Ou seja, apropriar-se não é uma questão de mero acesso. Neste aspecto inclusive uma boa parte das escolas já está contemplada a partir de uma diversidade de projetos institucionais. O que propormos discutir aqui é: os tipos de instrumentos escolhidos enquanto aparatos tecnológicos midiáticos e a qualidade de relação estabelecida com estes instrumentos, dando-lhes uma conotação pedagógica sem perder jamais de vista o papel do ser humano em seu processo inventivo que é onde ele possa agir politicamente interferindo na realidade em busca sempre de uma melhor qualidade de vida.
Em cada geração tecnológica, as linguagens vêm mediando nosso tempo de formas distintas, desde leitores contemplativos a leitores imersivos, trazendo no seu bojo as mediações culturais, tecnológicas, midiáticas até então vividas. A cultura contemporânea caracteriza-se pela composição de todas as formações culturais vivenciadas até então, contudo, não podemos ignorar que, o que vem, substancialmente, preponderando dentre as tecnologias da conexão contínuas, mais conhecidas como dispositivos móveis são os smartphones. Segundo Santaella (2007), passamos por cinco gerações tecnológicas: as tecnologias do reprodutível, que, com o auxílio das tecnologias eletromecânicas, semearam a cultura de massas; as tecnologias da difusão, dadas pelo rádio e a televisão, responsáveis pela cultura de massas; as tecnologias do disponível, que fizeram emergir a cultura das mídias, voltadas para públicos mais específicos; as tecnologias de acesso, que surgiram com a internet, permitindo o acesso a um fluxo cada vez mais intenso de informações; e, por fim, as tecnologias da conexão contínua, a partir do momento em que a conexão passou a estar desvinculada do desktop, passando a fazer parte cada vez mais de nosso cotidiano.
Na contemporaneidade, marcada pelas novas tecnologias da conexão contínua, cada dia mais, os dispositivos móveis vêm ganhando novos usuários. Ainda que, a escola esteja proibindo o uso dos celulares nas salas de aula, inevitavelmente, nossos estudantes estão sendo mediados por essas linguagens, dentro e fora da escola; no cotidiano, é crescente o número de adeptos do: Facebook, Twitter, YouTube, WhatsApp e de tantas outras interfaces. Por exemplo, segundo dados divulgados pelo Whatsapp (Instant Messenger comprado por 16 bilhões de dólares pelo Site de Rede Social Facebook), em fevereiro de 2014, o Brasil já possuía mais de 38 milhões de usuários – ou seja, 8% da base de mais de 465 milhões de usuários em todo o mundo[4]. Dados como este, reforçam o peso este app adquiriu no país quando o assunto é a sociabilidade por meio de áudios e textos via dispositivos móveis. Isso traz à tona, também, uma reflexão mais profunda sobre como aspectos técnicos e sociais presentes em tecnologias da conexão contínua, estão (re)configurando  dinâmicas sociais com novas concepções de mundo e de homem.
Dessa dialogia das Tics e das linguagens dadas em momentos socioculturais distintos, percebemos também o surgimento de novos perfis cognitivos, próprios de cada tempo, com demandas diferenciadas e, principalmente, com relações distintas com os processos de aprendizagem. Pois, de um lado, encontra-se o educando digital e de outro o educador analógico. Mas, que leitura podemos fazer destas situações? As sutilezas com que a forma de linguagem midiática vem sendo posta, é quase que imperceptível, pois, além de ser um modo de comunicação, de entretenimento, de atividade laboral, contudo, vem tornando-se como um emergente modus operandi[5] de vida, o que conduz a um novo modo de ser, de pensar, de agir e, sobretudo, de buscar soluções (ensinar e aprender). A linguagem líquida mediada nos dispositivos móveis está contribuindo para construção de uma sociedade líquida onde evidencia a fragilidade dos laços sociais, vínculos “líquidos” que geram insegurança e anseios ambivalentes: de um lado há o desejo de estreitar laços, porém, do outro, há o desejo de mantê-los frouxos, trazendo consigo uma nova subjetivação humana.
Segundo Santaella (2013, p. 16), “Em função da hipermobilidade, tornamo-nos seres ubíquos. Estamos, ao mesmo tempo, em algum lugar e fora dele. Tornamo-nos intermitentemente pessoas presentes-ausentes. Aparelhos móveis nos oferecem a possibilidade de presença perpétua de perto ou de longe, sempre presença”. A linguagem vem sendo modificada, ampliada e transfigurada diante da comunicação móvel, tornou-se leve, solta, perambulante. Perdeu-se a rigidez e a estabilidade. Viraram aparições, presenças fugidias que insurgem em qualquer hora, a qualquer lugar e, de repente, podem desaparecer ao toque delicado da ponta dos nossos dedos deslizando em telas de cristal líquido. O resultado disso é que, a forma como tal linguagem está sendo internalizada, ela vem corroborando para difusão de relacionamentos provisórios e com isto, estamos nos tornando esvaziados, efêmeros, ao mesmo tempo, próximos e tão distantes.
Vale ressaltar que não defendemos a idéia de que há uma relação de causa e efeito na relação das Tics com a sociedade. Assim sendo, estaríamos submetendo todas as pessoas a um estágio de subalternidade capaz de negar suas próprias subjetividades. No entanto, queremos destacar a necessidade de podermos nos relacionar com as mídias de modo ativo tendo a compreensão de que elas têm um aparato ideológico muito forte a defender, seus interesses e manutenção de poder, e que não podemos nos furtar de denunciar esta violência na própria formação da sociedade. De forma mais incisiva ainda, concordamos com Arbex Júnior quando diz que as Tics
“constrói consensos, educa percepções, produz ‘realidades’ parciais apresentadas como a totalidade do mundo, mente, distorce os fatos, falsifica, mistifica – atua, enfim, como um ‘partido’ que, proclamando-se porta-voz e espelho dos ‘interesses gerais’ da sociedade civil, defende os interesses de seus proprietários privados” Arbex Júnior, 2006, p.8)
           
            Portanto, estudar as Tics em suas sutilezas, intencionalidades, nos seus quereres, é hoje tão imprescindível quanto estudar qualquer conteúdo escolar. Melhor dizendo, como nosso propósito é destacar o papel da escola frente às mídias, compreendemos que é necessário incorporar as mídias como parte integrante dos currículos escolares. Estudar as Tics aqui não diz respeito em estudar sua dimensão técnica exclusivamente, mas sim, que elas possam ser vistas de um olhar não passivo no mesmo momento que possam estar fazendo parte das práticas curriculares da escola. Esta imprescibilidade (imprevisibilidade ou relevância) é uma tentativa de aproximação menos enviesada da vida cotidiana e a escola ressignificando o sentido desta última.
           
  1. É possível uma conversa <síncrona ou assíncrona> entre a escola e as mídias?

            No final dos anos 80, Babin (1989) fala da existência de uma incomunicabilidade entre os pais e a geração TV ou a geração audiovisual. Afirmaríamos que, esse mesmo distanciamento ocorre atualmente entre a escola e a geração midiática. Há uma sensação de que a escola esteja monologando ou falando outra língua. Permeia nos interiores das escolas uma linguagem que não comunica, não interage, não fala e cuja língua é estrangeira a sua própria nação. Assim, cantava Caetano Veloso “A língua é minha pátria e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria” (VELOSO, Caetano, música Língua). O uso dos dispositivos móveis, enquanto aparatos tecnológicos tão eficientes vêm disseminando uma linguagem ubíqua, trazendo outra dinâmica social, no entanto, a maioria dos pais, docentes e gestores fazem severas críticas quanto ao uso no processo educativo. Lévy (1999) assegura que “as novas formas de comunicação virtual superam os atuais conceitos de tempo e espaço, rompendo os vínculos sociais já instituídos entre pessoas, grupos, nações”. A linguagem digital constitui um novo espaço, atemporal, etéreo, fluido, plástico. O que existe por detrás destas constatações é que o outro (no caso o aluno) não tem muita significação nesta concepção educativa, portanto, não lhe é dada o poder de dizer sua palavra e o diálogo não se estabelece, a comunicação não se efetiva e vamos convivendo com esta patética situação de que à escola cabe um lugar de destaque na sociedade, ou seja, é uma ilha com seus rituais próprios desconectados da realidade.
            A escola precisa falar, mas é uma fala antes de tudo, para ela mesma. Não se pode cobrar novos resultados a partir de velhas práticas. É preciso compreender que a geração docente (analógica) não é a mesma geração discente (digital). Mesmo as crianças e jovens das classes menos privilegiadas que não tem acesso direto (ou seja, não possui em casa) ao computador, por exemplo, estes já estão familiarizados com eles, diferentemente de uma grande parcela dos docentes que passaram a ter os primeiros contatos com esta tecnologia em sua formação ou ainda nem tiveram por uma série de fatores. A necessidade de aprender com as novas gerações é a nossa enquanto educadores, tentando compreender sua forma de ver o mundo, seus anseios, inquietações, enfim, sua cultura. O fato da multiplicidade das Tics ser evidente isso não significa de forma simétrica que atualmente há um aumento significativo do processo de comunicação. O que alargou-se foram as possibilidades de recepção das informações ou como diz Babin que “ cada indivíduo se torna uma esfera receptora auto-suficiente” ( Babin, 1989, p. 149).
Na efetivação do processo comunicativo este não se contenta apenas com o simples comunicado do outro, exige uma relação dialógica permanente, uma troca forjando conhecimentos.  A efetivação da comunicação neste sentido é uma das funções da Escola. Se desejamos não compreender mais a escola como o centro irradiador de conhecimento, então isso exige que tomemos outras posturas diante do mundo que se apresenta assumindo o diálogo como uma base fundante de uma nova pedagogia, ou ainda,
A idéia que proporíamos da escola é a de um campus onde não se viesse em primeiro lugar para ‘aprender coisas’, o que pode ser feito em casa, sozinho, com uma máquina, mas para aprender a ligação que as coisas têm com a ação e a sabedoria de viver. Não uma escola – loja para consumir o saber, mas uma escola - mesa. Mesa sobre a qual se coloca junto o que se aprendeu, a fim de ligar, isto é, de completar, relativizar, criticar e confrontar o aprendido com a sociedade e a ação (Babin, 1989, p. 150)

Ao buscar ligar os saberes, o professor estará oportunizando ao aluno contribuir na troca e construção de novos saberes, pois, cada um traz consigo para dentro da escola outros saberes que, ao invés de serem selecionados possam ser validados nos espaços escolares. Ligar os saberes é efetivar o processo de comunicação na escola, mas é acima de tudo dar sentido às próprias ações pedagógicas. Cabe à escola ainda segundo Babin, “desmascarar os discursos. Ela tem de revelar o peso dos mecanismos e das infra-estruturas inerente à linguagem desta época “(Babin, 1989, p. 160). Poder-se-ia questionar: não estaríamos criando muita responsabilidade para a escola? Definitivamente, não! É preciso compreender que a cultura primeira do aluno antes de seu ingresso na escola é uma cultura midiática. Todos, de uma forma ou de outra têm contato com algum meio de comunicação e sofre a influência direta ou indiretamente. Portanto, a criança chega à escola com um ritmo de aprendizagem dinâmico, como é o formato da tv, e na maioria das vezes encontra um ambiente estático de aprendizagem proporcionando todas as adversidades que caracterizam nosso sistema escolar. Daí, a importância da manutenção do diálogo permanente e a necessidade de valorização dos saberes trazidos pelos alunos para primeiro, compreender seu universo e, em doses homeopáticas criar possibilidades de desacortinar outra possibilidade de enxergar o mundo com seus próprios olhos partindo do pressuposto de que as Tics  pode criar um simulacro da vida cotidiana.
            Afinal, seria muita ingenuidade nossa acreditar na inocência das Tics. Assim, o caminho do silêncio, muitas vezes adotado, não seria o mais recomendado. Ao silenciar, a escola e por extensão a família, legitima a fala midiática como uma verdade inconteste, porquanto não seria passiva de questionamento. A escola deve ser um espaço por excelência em dialogar criticamente com a sociedade fazendo outra leitura das mensagens midiáticas oferecendo inclusive um olhar sobre os discursos mercadológicos e ideológicos, por isso que precisamos preparar nossos alunos para uma “leitura crítica, mas principalmente para transcenderem sua condição de consumidores para produtores de narrativas audiovisuais que atendam as suas preocupações e exigências políticas e que sejam reveladoras de suas visões de mundo” (Orofino, 2005, p. 44t).
Por isso, precisamos situar o momento em que vivemos e a maneira como a escola vem adequando-se mediante a avassaladora inserção das dinâmicas que as tecnologias da conexão contínua vem tendo nos diversos setores da vida humana, principalmente, com a propagação do uso do Facebook e do WhatsApp, no nosso cotidiano. Compreendemos que, hoje, a conectividade, a mobilidade e a acessibilidade aos dispositivos móveis é algo real e irreversível, contribuindo para a disseminação de novas formas de conversações (síncronas ou assíncronas), de novas formas de relação, conduzindo a um novo modo de ser, de pensar, de agir e, sobretudo, de buscar soluções (ensinar e aprender).
O que está em jogo aqui é a compreensão de que a vida proposta pelo uso das Tics é apenas uma versão e não a única; outras visões é que a escola precisa ir revelando em parceria com os alunos num processo dialógico e reflexivo mas, antes de tudo, a escola, os professores, precisam estar cientes da contribuição das Tics na formatação de uma cultura contemporânea para só depois poderem propor alternativas que possam desmistificar uma visão única de mundo proposta na vida cotidiana pela cultura midiática.

Concluindo TEMPORARIAMENTE algumas inquietações...

            Percebemos, portanto, a necessidade de está demarcado e legitimado o papel da escola na sociedade contemporânea deixando claro e evidente suas possibilidades e limitações. Assim, além de ser considerada como um centro epistemológico, ela é uma espaço de conflito de ideias, mas também de socialização e reflexão da própria vida. Os saberes apresentados e/ou construídos na escola devem ser compreendidos como um recorte que se faz do conhecimento humano e não como o conhecimento maior. Outros saberes precisam ser validados nos bancos escolares a fim de que possamos fazer desta instituição um espaço verdadeiramente democrático e capaz de “colocar no palco da história muitas vozes silenciadas” (Freire, 1979).
            Cumpre-nos o dever, enquanto educadores, de revelar outras possibilidades de enxergar a vida, outras possibilidades do conhecimento humano que não apenas o modo científico, racional. Aqui, evidencia-se o papel desempenhado pelas Tics em nossa sociedade contemporânea que muitas vezes cria falácias cotidianas na tentativa de atender a suas demandas ideológicas e, principalmente, mercadológicas. Na tentativa midiática de forjar simulacros, a escola, em sua responsabilidade social, necessita tencionar estas “verdades” em que os alunos têm acesso antes mesmo de suas vivências escolares. Este tencionamento deve partir não de uma imposição evidenciando a autoridade da escola, mas, sim do diálogo permanente e da reflexão inerente a uma instituição que prima pela democratização do conhecimento e da humanização das pessoas.
Desse modo, torna-se imperativo que a escola reveja suas formas de linguagens utilizadas nas salas de aula e busque aprofundar discussões em torno de fenômenos da atualidade, como os Sites de Redes Sociais e Instant Messengers (tais como o Whatsapp), compreendendo como se dão as conversas nesses ambientes e quais são as rupturas e continuidades existentes nas interações que lá ocorrem. No contexto das práticas pedagógicas, é fundamental promover um diálogo de aproximação entre a cultura juvenil e a cultura escolar, partindo do pressuposto de que os jovens que estão em sala de aula não são os mesmos que a habitavam tempos atrás, a fim de evitarmos um hiato entre culturas e gerações.
Finalmente, defendemos veementemente a vivência dialógica permanente entre a escola e as Tics incorporando-as, inclusive, nas práticas pedagógicas. Esta incorporação não diz respeito ao seu estudo sistemático, no entanto, propõe-se aqui que, estas possam ganhar uma dimensão pedagógica sendo utilizadas para além de instrumentos potencializadores da prática docente e como aparatos técnicos e também epistemológicos no sentido de que permitam trazer à vida cotidiana para dentro da escola. Ainda que, esta vida seja repassada muitas vezes de forma enviesada, eis o papel da escola na sua capacidade de questionar a forma como as Tics vêm impondo uma nova subjetivação humana. Pois, se o aluno tem o contato com as Tics, à escola se apropria desta cultura primeira para manter um diálogo tanto com elas como com o próprio aluno, reconhecendo seu universo vivencial e dando sentido à própria instituição escolar na medida em que se cria o espaço onde todos possam reconhecer-se como autores de seus próprios conhecimentos e de suas subjetividades.
             


Referências

Abramo, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. 2. ed. São Paulo: editora Fundação Perseu Abramo, 2006.
Babin, Pierre. Os novos modos de compreender. Trad. Maria Cecília Oliveira Marques. Edições Paulinas, 1989.
Bonilla, Maria Helena Silveira. Escola Aprendente: para além da sociedade da informação. Rio de Janeiro: Quartet, 2005.
Cortella, Mário Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 7. ed. São Paulo: cortez: Instituto Paulo Freire, 2003.
FREIRE, Paulo. (1979). Educação como prática da liberdade. 17.ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
Lima Júnior, Arnaud Soares de. Tecnologias inteligentes e educação: currículo hipertextual. Rio de Janeiro: Quartet; Juazeiro, Ba: FUNDESF, 2005.
Lévy, Pierre. O que é virtual?  Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: ed. 34, 1999. (Coleção TRANS)
 ______. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: ed. 34, 1999. (Coleção TRANS)
Lima Júnior, Arnaud soares de e Hetkowski, Tânia Maria (Org.). Educação e Contemporaneidade: desafios para a pesquisa e a pós-graduação. Rio de Janeiro: Quartet, 2006.
Orofino, Maria Isabel. Mídias e mediação escolar: pedagogia dos meios, participação e visibilidade. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2005.
SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
______. Comunicação ubíqua: repercussões na cultura e na educação. São Paulo: Paulus, 2013 (coleção comunicação)
Silverstone, Roger. Por que estudar a  mídia? Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo. Edições Loyola, 2002.



[1] Pedagogo e mestre em Educação pelo Programa de Educação e Contemporaneidade pela Universidade Estadual da Bahia
[2] Metanarrativa é um termo literário e filosófico que significa simplificadamente a narrativa contida dentro ou além da própria narrativa.
[3] Toda vez que aparecer no texto as expressões “vida midiática”, “sociedade midiática” ou ainda “ geração midiática”, referimo-nos à sociedade contemporânea fortemente influenciada pelas mídias na vida cotidiana.
[5] Modus operandi é uma expressão em latim que significa "modo de operação", utilizada para designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo sempre os mesmos procedimentos.