( Artigo apresentado no I Congresso de Educação profissional e tecnologias aplicadas do IFBA - Instituto Federal de Educação, ciência e tecnologia da Bahia )
I COEPTEC - 2014
Welber Lima Santos[1]
RESUMO:
PALAVRAS-CHAVE:
Escola, Tics, diálogo.
Iniciando algumas inquietações...
Mesmo com todo o avanço no
campo das tecnologias da informação e comunicação, e apropriadas pelo campo da
educação, ao mesmo tempo em que temos oportunidades maiores na democratização
do conhecimento, infelizmente ainda vivenciamos um período de pragmatismos em
busca de resultados imediatos, perdendo
ou jogando fora nossa capacidade de reflexão na tentativa de criar alternativas
e não de absorver soluções pensados por outrem para as questões que vão sendo
apresentadas na vida cotidiana. Fazemos este alerta, pois em nosso artigo não
temos qualquer pretensão de oferecer um aparato de metodologias de como
incorporar as Tics na escola, mas, apenas, de chamar a atenção desta
necessidade apresentando elementos de comportamento das Tics e suas
influências na nossa própria forma de
agir em várias situações e assim, enfatizar a responsabilidade da escola nesse
cenário à medida que, esta é a instituição, por excelência educativa, e não pode se eximir de seu papel
de, primeiro dar-se sentido e concomitantemente criar as condições necessárias
para a formação de uma sociedade mais democrática e reflexiva com os meios de
comunicação de forma geral e com ela mesma.
- Para que serve mesmo a escola?
Mundanamente tem-se
constituído a imagem da escola como a instituição redentora da sociedade,
aquela capaz de oferecer as alternativas para as mazelas sociais e assim, esta
se incorpora de um aparato de conhecimentos específicos forjando sua própria
identidade. Acontece que estes “saberes” atribuídos à escola e difundidos pela
escola são quase que identificados como aqueles válidos e não passíveis de
questionamentos. A escola é, em síntese, pura racionalidade. Nela, a ciência
ganha status de “saber mor”, as ações desenvolvidas giram em torno desse saber
científico, e a preocupação maior é o desenvolvimento do campo racional e
intelectual dos alunos. Ainda mais quando ganha um grande reforço da mídia,
pois,
nos dias de hoje, a
mídia (instrumento pedagógico poderoso) oferece uma noção bastante triunfalista
da ciência e aqueles que têm limitado acesso ao pensamento crítico (a maioria)
acabam por se deixar levar pela convicção de que tudo isso ocorre em um outro
mundo, fora deles e da possibilidade de também serem capazes de neles estarem
presentes (Cortella, 2003, p. 102).
Neste sentido, podemos mostrar
a distância existente entre a escola e o aluno, o indivíduo, a sociedade e a
vida; notoriamente, percebemos que, dessa forma, cada dia mais, por um lado, a
escola vai se individualizando, criando uma espécie de redoma epistemológica
onde os saberes, ditos formais, ali trabalhados cabem apenas a uma parcela de
pessoas com determinadas capacidades, competências e habilidades; e por outro, àqueles
ditos informais e não-formais, não pertencem àquela instituição, ou melhor, não
são validados e nesta negação de saberes uma parcela significativa não se ver
pertencente àquela instituição que vai cumprindo um papel de exclusão, pois
acaba reforçando a falsa idéia de uma incapacidade cognitiva perante o “saber
maior”. Para melhorar compreensão das concepções de escola que estão vigentes,
hoje, no meio acadêmico e no meio social, cabem aqui buscarmos diferenciar os três
conceitos expostos: formais, informais e não-formais. Para Libâneo (2005), os
três conceitos apresentados caracteriza, respectivamente, três modalidades da
educação:
A educação informal
corresponderia a ações e influências exercidas pelo meio, pelo ambiente
sociocultural, e que se desenvolve por meio das relações dos indivíduos e
grupos com seu ambiente humano, social, ecológico, físico e cultural, das quais
resultam conhecimentos, experiências, práticas, mas que não estão ligadas
especificamente a uma instituição, nem são intencionais e organizadas. A
educação não-formal seria a realizada em instituições educativas fora dos
marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação. A
educação formal compreenderia instâncias de formação, escolares ou não, onde há
objetivos educativos explícitos e uma ação intencional institucionalizada,
estruturada, sistemática.” (p.31).
Então, é preciso apropriar-se
desses conceitos que exige um grau de discernimento perante o modo como se
caracterizam, distinguem e articulam às suas noções de Educação Formal,
Educação Não-Formal e Educação Informal. Pois, as modalidades educacionais
distinguem-se em relação à ausência ou presença, em diferentes níveis, de
intencionalidade da ação educativa. Pois, de forma geral, espera-se que a
escola seja um espaço de democratização de saberes; um espaço onde possa se
criar as possibilidades onde o outro possa dizer sua palavra como bem pregava
Paulo Freire, é necessário deixar claro que os conhecimentos científicos e
historicamente elaborados pela humanidade são imprescindíveis numa formação
mais sólida a partir da escola, entretanto, que estes conhecimentos não sejam
apresentados como uma verdade absoluta, uma metanarrativa[2],
de forma estática, e sim, como um dos campos do saber humano localizado e
definido epistemologicamente desde um lugar geográfico-histórico e impregnado
de ideologias e, portanto, passíveis de transmutações. Esses conhecimentos
devem ser apropriados por todos os alunos a partir de duas dimensões: a
dimensão de necessidade de ampliação de conhecimento inerente a cada indivíduo
em sua curiosidade, mas também, a necessidade dessa mesma apropriação como uma
arma de defesa para quaisquer tipos de tentativa de opressão ou diminuição do
outro.
A escola deve ser a
instituição que “selecione e apresente
conteúdos que possibilitem aos alunos uma compreensão de sua própria realidade
e seu fortalecimento como cidadãos, de modo a serem capazes de transformá-la na
direção dos interesses da maioria social” (Cortella, 2003, p.16). Necessariamente,
tal seleção deverá estar implicada e imbricada com este propósito, pois, desta
maneira, o professor irá definir exatamente o tipo de cidadão que se propõe
formar. Aqui se evidencia a necessidade de uma negociação não só de saberes,
mas, sobretudo, também uma mudança de práticas pedagógicas que sinalizem a
complexidade do conhecimento humano não havendo espaço para um reducionismo, ou
seja, a eleição de um campo epistémico do conhecimento que esteja acima de
qualquer outro. De um lado os professores, gestão e coordenação que pensam a
escola exclusivamente sob sua lógica, definindo o seu papel social e assim definem
“a priori”, o que deve e não deve ser
autorizado a ser trabalhado. A escola deste segmento é aquela em que os alunos
“não querem nada”. Por outro lado, os alunos pensam a escola, inicialmente,
como um espaço de alegria, criação e aprendizagens, basta imaginar a euforia
dos primeiros anos de vida escolar ou, até mesmo, no início de cada ano letivo
onde as energias se renovam, porém, depois, observemos um certo desprazer em
sua permanência. Por isso,
É necessário que
professor e aluno experimentem o labirinto e a complexidade de se trabalhar na
singularidade de cada organização/situação e na incerteza do aprender, conhecer
e instituir novas práticas e realidades, nos contextos em que participam como
parte integrante/integrada, como sujeitos históricos, de autonomia, de
co-autoria e de co-responsabilidade ( Lima Jr. e Hetkowski, 2006, p. 41)
Não
havendo uma abertura radical para esta dimensão complexa da realidade, a escola
vai (con)vivendo com este ambiente um tanto autoritário pois não há um
posicionamento amadurecido por parte de quem deveria (docentes, coordenação e gestão)
no sentido de poder criar o espaço de (re)conhecimento dos interesses e
inquietações dos alunos. Em nome de um falso manto de unidade, num discurso
ocidental “igualitário” que, vem impondo modelos como se fossem os únicos a
priorizar apenas o “pensar” em desvalorização, detrimento e aniquilamento das
diversas outras formas de saber, de conhecer e de se (re)conhecer no mundo,
assim, neste sentido, vai negando as subjetividades ali presentes, um vasto
campo de conhecimentos que cada um dos alunos traz em sua bagagem de vida e
prontos a serem socializados. Parece-nos que, a escola assim vem se
apresentando anacrônica, desconexa, em um descompasso com o cotidiano, vai negando
o diálogo necessário à sua própria identidade e, ao fazer isto, vai colocando
em dúvidas a sua própria existência pois, quando não há diálogo, não há
comunicação efetiva, não há ensino e nem aprendizagem, portanto, questiona-se: qual
a razão da existência desta instituição?
Uma
coisa é a escola que aí está posta, vivida; a outra é a escola que forjamos nas
utopias e é aqui que depositamos nossa energia, uma vez que é na esperança,
conjugada com a luta cotidiana, com a negação do pensamento único e com a
proposição de ações práticas, que possamos ir fomentando as possibilidades possíveis
da criação de uma escola que seja capaz de socializar a própria vida. Porque, ainda
que, na tensão existente no cerne escolar, haja algumas práticas pedagógicas
desarticuladas com o cotidiano, a escola, enquanto instituição formal de ensino,
não deve estar, como um todo, desconectada da realidade vivencial de cada
aluno, professor, gestor, coordenador, funcionário e da sociedade de modo
geral.
- Para que serve mesmo as Tecnologias da
Informação e Comunicação (Tics)?
Certamente não é nossa intenção realizar um levantamento
ou enumerar uma série de fatos que atestam a influência das Tics em nossas
vidas. Compreendemos apenas ser necessário apresentar uma discussão que possamos
refletir e nos sintonizar no que diz respeito das sutilizas de que elas se
utilizam para efetivar seus propósitos e assim acabamos por denunciar a não
neutralidade de suas intenções e do campo político-ideológico que permeia tais
escolhas, embora tentem transparecer exatamente um modo imparcial de lidar com
a realidade. Ainda que, seja importante reconhecer e discernir a necessidade da
apropriação, por parte das escolas de forma geral, das especificidades das suas
linguagens e dos instrumentos midiáticos incorporando-os na dinâmica curricular
na intenção de reduzir a distância existente entre a escola, a vida midiática[3] e
a vida cotidiana. Porém, é preciso estar claro que,
...a presença dos recursos
tecnológicos é indispensável, mas desde que os mesmos possam ser entendidos e
explorados com esta ênfase na criatividade e na metamorfose (mudança,
transformação de si e do contexto local, atualização histórica e contextual,
etc.) em um processo permanente e complexo de afirmação da condição humana e da
humanização do mundo (Lima Jr. , apud
Lima Júnior e Hetkwisk, 2006, p. 34)
Ou seja, apropriar-se não
é uma questão de mero acesso. Neste aspecto inclusive uma boa parte das escolas
já está contemplada a partir de uma diversidade de projetos institucionais. O
que propormos discutir aqui é: os tipos de instrumentos escolhidos enquanto
aparatos tecnológicos midiáticos e a qualidade de relação estabelecida com
estes instrumentos, dando-lhes uma conotação pedagógica sem perder jamais de
vista o papel do ser humano em seu processo inventivo que é onde ele possa agir
politicamente interferindo na realidade em busca sempre de uma melhor qualidade
de vida.
Em cada geração
tecnológica, as linguagens vêm mediando nosso tempo de formas distintas, desde leitores
contemplativos a leitores imersivos, trazendo no seu bojo as mediações
culturais, tecnológicas, midiáticas até então vividas. A cultura contemporânea
caracteriza-se pela composição de todas as formações culturais vivenciadas até
então, contudo, não podemos ignorar que, o que vem, substancialmente,
preponderando dentre as tecnologias da conexão contínuas, mais conhecidas como
dispositivos móveis são os smartphones.
Segundo Santaella (2007), passamos por cinco gerações tecnológicas: as
tecnologias do reprodutível, que, com o auxílio das tecnologias
eletromecânicas, semearam a cultura de massas; as tecnologias da difusão, dadas
pelo rádio e a televisão, responsáveis pela cultura de massas; as tecnologias
do disponível, que fizeram emergir a cultura das mídias, voltadas para públicos
mais específicos; as tecnologias de acesso, que surgiram com a internet,
permitindo o acesso a um fluxo cada vez mais intenso de informações; e, por
fim, as tecnologias da conexão contínua, a partir do momento em que a conexão
passou a estar desvinculada do desktop, passando a fazer parte cada vez mais de
nosso cotidiano.
Na contemporaneidade,
marcada pelas novas tecnologias da conexão contínua, cada dia mais, os
dispositivos móveis vêm ganhando novos usuários. Ainda que, a escola esteja proibindo
o uso dos celulares nas salas de aula, inevitavelmente, nossos estudantes estão
sendo mediados por essas linguagens, dentro e fora da escola; no cotidiano, é
crescente o número de adeptos do: Facebook,
Twitter, YouTube, WhatsApp e de tantas outras interfaces. Por exemplo, segundo
dados divulgados pelo Whatsapp (Instant Messenger comprado
por 16 bilhões de dólares pelo Site de Rede Social Facebook),
em fevereiro de 2014, o Brasil já possuía mais de 38 milhões de usuários – ou
seja, 8% da base de mais de 465 milhões de usuários em todo o mundo[4].
Dados como este, reforçam o peso este app adquiriu no país quando o
assunto é a sociabilidade por meio de áudios e textos via dispositivos móveis.
Isso traz à tona, também, uma reflexão mais profunda sobre como aspectos
técnicos e sociais presentes em tecnologias da conexão contínua, estão
(re)configurando dinâmicas sociais com
novas concepções de mundo e de homem.
Dessa dialogia das Tics e
das linguagens dadas em momentos socioculturais distintos, percebemos também o
surgimento de novos perfis cognitivos, próprios de cada tempo, com demandas
diferenciadas e, principalmente, com relações distintas com os processos de
aprendizagem. Pois, de um lado, encontra-se o educando digital e de outro o
educador analógico. Mas, que leitura podemos fazer destas situações? As sutilezas
com que a forma de linguagem midiática vem sendo posta, é quase que
imperceptível, pois, além de ser um modo de comunicação, de entretenimento, de
atividade laboral, contudo, vem tornando-se como um emergente modus operandi[5] de
vida, o que conduz a um novo modo de ser, de pensar, de agir e, sobretudo, de
buscar soluções (ensinar e aprender). A linguagem líquida mediada nos
dispositivos móveis está contribuindo para construção de uma sociedade líquida
onde evidencia a fragilidade dos laços sociais, vínculos “líquidos” que geram
insegurança e anseios ambivalentes: de um lado há o desejo de estreitar laços,
porém, do outro, há o desejo de mantê-los frouxos, trazendo consigo uma nova
subjetivação humana.
Segundo Santaella (2013,
p. 16), “Em função da hipermobilidade, tornamo-nos seres ubíquos. Estamos, ao
mesmo tempo, em algum lugar e fora dele. Tornamo-nos intermitentemente pessoas
presentes-ausentes. Aparelhos móveis nos oferecem a possibilidade de presença
perpétua de perto ou de longe, sempre presença”. A linguagem vem sendo
modificada, ampliada e transfigurada diante da comunicação móvel, tornou-se
leve, solta, perambulante. Perdeu-se a rigidez e a estabilidade. Viraram
aparições, presenças fugidias que insurgem em qualquer hora, a qualquer lugar
e, de repente, podem desaparecer ao toque delicado da ponta dos nossos dedos
deslizando em telas de cristal líquido. O resultado disso é que, a forma como
tal linguagem está sendo internalizada, ela vem corroborando para difusão de
relacionamentos provisórios e com isto, estamos nos tornando esvaziados,
efêmeros, ao mesmo tempo, próximos e tão distantes.
Vale ressaltar que não
defendemos a idéia de que há uma relação de causa e efeito na relação das Tics
com a sociedade. Assim sendo, estaríamos submetendo todas as pessoas a um estágio
de subalternidade capaz de negar suas próprias subjetividades. No entanto,
queremos destacar a necessidade de podermos nos relacionar com as mídias de modo
ativo tendo a compreensão de que elas têm um aparato ideológico muito forte a
defender, seus interesses e manutenção de poder, e que não podemos nos furtar
de denunciar esta violência na própria formação da sociedade. De forma mais
incisiva ainda, concordamos com Arbex Júnior quando diz que as Tics
“constrói consensos,
educa percepções, produz ‘realidades’ parciais apresentadas como a totalidade
do mundo, mente, distorce os fatos, falsifica, mistifica – atua, enfim, como um
‘partido’ que, proclamando-se porta-voz e espelho dos ‘interesses gerais’ da
sociedade civil, defende os interesses de seus proprietários privados” Arbex
Júnior, 2006, p.8)
Portanto,
estudar as Tics em suas sutilezas, intencionalidades, nos seus quereres, é hoje
tão imprescindível quanto estudar qualquer conteúdo escolar. Melhor dizendo,
como nosso propósito é destacar o papel da escola frente às mídias, compreendemos
que é necessário incorporar as mídias como parte integrante dos currículos
escolares. Estudar as Tics aqui não diz respeito em estudar sua dimensão
técnica exclusivamente, mas sim, que elas possam ser vistas de um olhar não
passivo no mesmo momento que possam estar fazendo parte das práticas
curriculares da escola. Esta imprescibilidade (imprevisibilidade ou relevância)
é uma tentativa de aproximação menos enviesada da vida cotidiana e a escola
ressignificando o sentido desta última.
- É possível uma conversa <síncrona ou
assíncrona> entre a escola e as mídias?
No
final dos anos 80, Babin (1989) fala da existência de uma incomunicabilidade
entre os pais e a geração TV ou a geração audiovisual. Afirmaríamos que, esse mesmo
distanciamento ocorre atualmente entre a escola e a geração midiática. Há uma
sensação de que a escola esteja monologando ou falando outra língua. Permeia nos interiores das escolas uma
linguagem que não comunica, não interage, não fala e cuja língua é estrangeira
a sua própria nação. Assim, cantava Caetano Veloso “A língua é minha pátria e
eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria” (VELOSO, Caetano, música
Língua). O uso dos dispositivos móveis, enquanto aparatos tecnológicos tão
eficientes vêm disseminando uma linguagem ubíqua, trazendo outra dinâmica
social, no entanto, a maioria dos pais, docentes e gestores fazem severas
críticas quanto ao uso no processo educativo. Lévy (1999) assegura que “as
novas formas de comunicação virtual superam os atuais conceitos de tempo e
espaço, rompendo os vínculos sociais já instituídos entre pessoas, grupos,
nações”. A linguagem digital constitui um novo espaço, atemporal, etéreo,
fluido, plástico. O que existe por detrás destas constatações é que o outro (no
caso o aluno) não tem muita significação nesta concepção educativa, portanto,
não lhe é dada o poder de dizer sua palavra e o diálogo não se estabelece, a
comunicação não se efetiva e vamos convivendo com esta patética situação de que
à escola cabe um lugar de destaque na sociedade, ou seja, é uma ilha com seus
rituais próprios desconectados da realidade.
A
escola precisa falar, mas é uma fala antes de tudo, para ela mesma. Não se pode
cobrar novos resultados a partir de velhas práticas. É preciso compreender que
a geração docente (analógica) não é a mesma geração discente (digital). Mesmo as
crianças e jovens das classes menos privilegiadas que não tem acesso direto (ou
seja, não possui em casa) ao computador, por exemplo, estes já estão
familiarizados com eles, diferentemente de uma grande parcela dos docentes que
passaram a ter os primeiros contatos com esta tecnologia em sua formação ou
ainda nem tiveram por uma série de fatores. A necessidade de aprender com as
novas gerações é a nossa enquanto educadores, tentando compreender sua forma de
ver o mundo, seus anseios, inquietações, enfim, sua cultura. O fato da
multiplicidade das Tics ser evidente isso não significa de forma simétrica que
atualmente há um aumento significativo do processo de comunicação. O que
alargou-se foram as possibilidades de recepção das informações ou como diz
Babin que “ cada indivíduo se torna uma
esfera receptora auto-suficiente” ( Babin, 1989, p. 149).
Na efetivação do processo
comunicativo este não se contenta apenas com o simples comunicado do outro, exige
uma relação dialógica permanente, uma troca forjando conhecimentos. A efetivação da comunicação neste sentido é
uma das funções da Escola. Se desejamos não compreender mais a escola como o
centro irradiador de conhecimento, então isso exige que tomemos outras posturas
diante do mundo que se apresenta assumindo o diálogo como uma base fundante de
uma nova pedagogia, ou ainda,
A idéia que
proporíamos da escola é a de um campus onde não se viesse em primeiro lugar
para ‘aprender coisas’, o que pode ser feito em casa, sozinho, com uma máquina,
mas para aprender a ligação que as coisas têm com a ação e a sabedoria de
viver. Não uma escola – loja para consumir o saber, mas uma escola - mesa. Mesa
sobre a qual se coloca junto o que se aprendeu, a fim de ligar, isto é, de
completar, relativizar, criticar e confrontar o aprendido com a sociedade e a
ação (Babin, 1989, p. 150)
Ao buscar ligar os saberes,
o professor estará oportunizando ao aluno contribuir na troca e construção de
novos saberes, pois, cada um traz consigo para dentro da escola outros saberes
que, ao invés de serem selecionados possam ser validados nos espaços escolares.
Ligar os saberes é efetivar o processo de comunicação na escola, mas é acima de
tudo dar sentido às próprias ações pedagógicas. Cabe à escola ainda segundo
Babin, “desmascarar os discursos. Ela tem
de revelar o peso dos mecanismos e das infra-estruturas inerente à linguagem
desta época “(Babin, 1989, p. 160). Poder-se-ia questionar: não estaríamos criando
muita responsabilidade para a escola? Definitivamente, não! É preciso compreender
que a cultura primeira do aluno antes de seu ingresso na escola é uma cultura
midiática. Todos, de uma forma ou de outra têm contato com algum meio de
comunicação e sofre a influência direta ou indiretamente. Portanto, a criança
chega à escola com um ritmo de aprendizagem dinâmico, como é o formato da tv, e
na maioria das vezes encontra um ambiente estático de aprendizagem
proporcionando todas as adversidades que caracterizam nosso sistema escolar.
Daí, a importância da manutenção do diálogo permanente e a necessidade de
valorização dos saberes trazidos pelos alunos para primeiro, compreender seu
universo e, em doses homeopáticas criar possibilidades de desacortinar outra
possibilidade de enxergar o mundo com seus próprios olhos partindo do pressuposto
de que as Tics pode criar um simulacro
da vida cotidiana.
Afinal,
seria muita ingenuidade nossa acreditar na inocência das Tics. Assim, o caminho
do silêncio, muitas vezes adotado, não seria o mais recomendado. Ao silenciar,
a escola e por extensão a família, legitima a fala midiática como uma verdade
inconteste, porquanto não seria passiva de questionamento. A escola deve ser um
espaço por excelência em dialogar criticamente com a sociedade fazendo outra
leitura das mensagens midiáticas oferecendo inclusive um olhar sobre os
discursos mercadológicos e ideológicos, por isso que precisamos preparar nossos
alunos para uma “leitura crítica, mas
principalmente para transcenderem sua condição de consumidores para produtores
de narrativas audiovisuais que atendam as suas preocupações e exigências
políticas e que sejam reveladoras de suas visões de mundo” (Orofino, 2005, p.
44t).
Por isso, precisamos
situar o momento em que vivemos e a maneira como a escola vem adequando-se
mediante a avassaladora inserção das dinâmicas que as tecnologias da conexão
contínua vem tendo nos diversos setores da vida humana, principalmente, com a
propagação do uso do Facebook e do WhatsApp, no nosso cotidiano.
Compreendemos que, hoje, a conectividade, a mobilidade e a acessibilidade aos
dispositivos móveis é algo real e irreversível, contribuindo para a
disseminação de novas formas de conversações (síncronas ou assíncronas), de
novas formas de relação, conduzindo a um novo modo de ser, de pensar, de agir
e, sobretudo, de buscar soluções (ensinar e aprender).
O que está em jogo aqui é
a compreensão de que a vida proposta pelo uso das Tics é apenas uma versão e
não a única; outras visões é que a escola precisa ir revelando em parceria com
os alunos num processo dialógico e reflexivo mas, antes de tudo, a escola, os
professores, precisam estar cientes da contribuição das Tics na formatação de
uma cultura contemporânea para só depois poderem propor alternativas que possam
desmistificar uma visão única de mundo proposta na vida cotidiana pela cultura
midiática.
Concluindo TEMPORARIAMENTE algumas inquietações...
Percebemos,
portanto, a necessidade de está demarcado e legitimado o papel da escola na
sociedade contemporânea deixando claro e evidente suas possibilidades e limitações.
Assim, além de ser considerada como um centro epistemológico, ela é uma espaço
de conflito de ideias, mas também de socialização e reflexão da própria vida.
Os saberes apresentados e/ou construídos na escola devem ser compreendidos como
um recorte que se faz do conhecimento humano e não como o conhecimento maior.
Outros saberes precisam ser validados nos bancos escolares a fim de que
possamos fazer desta instituição um espaço verdadeiramente democrático e capaz
de “colocar no palco da história muitas vozes silenciadas” (Freire, 1979).
Cumpre-nos
o dever, enquanto educadores, de revelar outras possibilidades de enxergar a
vida, outras possibilidades do conhecimento humano que não apenas o modo
científico, racional. Aqui, evidencia-se o papel desempenhado pelas Tics em
nossa sociedade contemporânea que muitas vezes cria falácias cotidianas na
tentativa de atender a suas demandas ideológicas e, principalmente, mercadológicas.
Na tentativa midiática de forjar simulacros, a escola, em sua responsabilidade
social, necessita tencionar estas “verdades” em que os alunos têm acesso antes
mesmo de suas vivências escolares. Este tencionamento deve partir não de uma
imposição evidenciando a autoridade da escola, mas, sim do diálogo permanente e
da reflexão inerente a uma instituição que prima pela democratização do conhecimento
e da humanização das pessoas.
Desse modo, torna-se imperativo
que a escola reveja suas formas de linguagens utilizadas nas salas de aula e
busque aprofundar discussões em torno de fenômenos da atualidade, como os Sites
de Redes Sociais e Instant Messengers (tais como o Whatsapp),
compreendendo como se dão as conversas nesses ambientes e quais são as rupturas
e continuidades existentes nas interações que lá ocorrem. No contexto das
práticas pedagógicas, é fundamental promover um diálogo de aproximação entre a
cultura juvenil e a cultura escolar, partindo do pressuposto de que os jovens
que estão em sala de aula não são os mesmos que a habitavam tempos atrás, a fim
de evitarmos um hiato entre culturas e gerações.
Finalmente, defendemos
veementemente a vivência dialógica permanente entre a escola e as Tics
incorporando-as, inclusive, nas práticas pedagógicas. Esta incorporação não diz
respeito ao seu estudo sistemático, no entanto, propõe-se aqui que, estas
possam ganhar uma dimensão pedagógica sendo utilizadas para além de
instrumentos potencializadores da prática docente e como aparatos técnicos e
também epistemológicos no sentido de que permitam trazer à vida cotidiana para
dentro da escola. Ainda que, esta vida seja repassada muitas vezes de forma
enviesada, eis o papel da escola na sua capacidade de questionar a forma como
as Tics vêm impondo uma nova subjetivação humana. Pois, se o aluno tem o
contato com as Tics, à escola se apropria desta cultura primeira para manter um
diálogo tanto com elas como com o próprio aluno, reconhecendo seu universo
vivencial e dando sentido à própria instituição escolar na medida em que se cria
o espaço onde todos possam reconhecer-se como autores de seus próprios conhecimentos
e de suas subjetividades.
Referências
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Irineu da Costa. São Paulo: ed. 34, 1999. (Coleção TRANS)
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Arnaud soares de e Hetkowski, Tânia Maria (Org.). Educação e Contemporaneidade: desafios para a pesquisa e a
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Orofino,
Maria Isabel. Mídias e mediação escolar:
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SANTAELLA,
Lucia. Linguagens líquidas na era da
mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
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Comunicação ubíqua: repercussões na cultura e na educação. São Paulo:
Paulus, 2013 (coleção comunicação)
Silverstone,
Roger. Por que estudar a mídia? Trad. Marcos Marcionilo. São
Paulo. Edições Loyola, 2002.
[1] Pedagogo e mestre em
Educação pelo Programa de Educação e Contemporaneidade pela Universidade
Estadual da Bahia
[2] Metanarrativa é um termo literário e filosófico que
significa simplificadamente a narrativa contida dentro ou além da própria
narrativa.
[3] Toda vez que aparecer
no texto as expressões “vida midiática”, “sociedade midiática” ou ainda “
geração midiática”, referimo-nos à sociedade contemporânea fortemente
influenciada pelas mídias na vida cotidiana.
[4] Disponível: <http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/02/1418158-whatsapp-diz-ter-38-milhoes-de-usuarios-no-brasil.shtml>
[5] Modus operandi é uma
expressão em latim que significa "modo de operação", utilizada para
designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo sempre
os mesmos procedimentos.
