segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

AXÉ: renovação para quem?

"O Axé precisa se renovar!" Isto já virou um  mote mas fico a me peguntar até que ponto esta renovação significa  e  até que ponto  não se trata de uma tentativa de justificação, explico:
Quando se pede pra alguém ou algo se renovar  é porque está estático e portanto, precisa inventar  algo novo, precisa mudar, alternar, metamorfosear...O Axé, enquanto "modus" musical tem estilo próprio caracterizado exatamente pela heterogeneidade, fusão de ritmos mas com determinadas características peculiares: a evidência da percussão, muito swingue e letras que digam algo, do mais simples  até questões de afirmação de identidade passando por questões sociais e, claro, de amor tudo com muita poesia.
É bem verdade que quando se fala que o carnaval de Salvador tem momentos que está chato é muito mais por uma estrutura estática do que necessariamente pelo aspecto musical pois se sabe que todo sábado de carnaval às 15:33 o trio tal vai estar em tal local tocando a mesma música de 8 anos atras.
Quando se pede e exige mudança no Axé é preocupante no sentido de que este pedido acaba produzindo desprezos. Renovar o Axé seria passar a tocar um "sertanejo" axezado? Seria arrochar o Axé? Seria em ultima instância tirar sua identidade e se adaptar docilmente ao que se toca  nas rádios no momento?
Há um desprezo literal  a Luiz Caldas que produz 1 cd por mês há dois anos seguidos, despreza Ivete Sangalo, Tomate, Gerõnimo, Olodum, Ilê Ayê, Muzenza, Bankoma, Saulo, Alavontê, Daniela Mercury, Carlinhos Brawn, Bel Marques, Magary Lord, Banda Eva, Timbalada
que vêm produzindo belezas musicais todos os anos.
Por outro lado, este pedido seria uma tentativa  que os meios de comunicação baianos encontraram para justificarem sua covardia em peitar a indústria fonográfica e mostrar que na Bahia se ouve do pagodão, arrocha , rock e sertanejo mas que aqui é sim, também, a Terra do Axé e com muito orgulho.
Toda mudança permanente é sempre bem vinda mas isso , boa parte de nossos artistas do Axé estão fazendo, mas uma mudança para se adaptar cegamente a um determinado mercado matando nossa musicalidade sem dúvida não é desejável. Reflitamos!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

AFINAL, QUAL A MÚSICA DO CARNAVAL?

De uns anos pra cá, essa coisa de escolha da música do carnaval tem induzido vários artistas a se organizarem exclusivamente para este fim: ter sua música escolhida em 1º lugar da festa de momo!!! Uns inclusive estão numa verdadeira obsessão que vai desde simulação de enfermidades até a indução das pessoas com outdoors ostensivos com os dizeres: " música tal, a música do carnaval..."de forma bem padronizada.
Primeiro é preciso pensar sobre qual o significado deste título. Assim, algumas questões considero pertinentes: quem promove esta titulação? quais critérios são utilizados? quais interesses mercadológicos o sustenta? existe uma indução pré-carnaval para esta eleição?....
Segundo, a impressão  que se tem é que as rádios e tvs fecham um acordão com as gravadoras e elegem previamente as possíveis músicas "do carnaval" e não há qualquer possibilidade de se conhecer outras canções relegando ao ostracismo grandes artistas, grandes músicas e negando a todos nós a possibilidade de vivenciarmos a diversidade musical.
Terceiro, com estes ingredientes de indução em busca do "santo Graal"(a música do carnaval), homeopaticamente vai matando o que há de mais salutar na festa: a multiplicidade, mistura e heterogeneidade dsa músicas criando uma espécie de "Mecdonaldização" musical em que  se propõe a fazer algo padronizado. Aqui, no carnaval de Salvador, cabe todo estilo musical e assim já presenciamos música clássica em pleno carnaval, rock, maracatu, sertanejo, arrocha, salsa, forró....de forma mesclada e não de forma induzida, cada um entendendo seu espaço sem buscar exclusividade compondo assim uma  das belezas da festa. 
Desta forma, nos resta refletir que a ultima coisa  que importa no carnaval, é a escolha da música; é identificar que esta eleição é totalmente insignificante, irrelevante, atendendo apenas a apelos mercadológicos. O que buscamos no carnaval é a alegria, é a inversão do cotidiano, a descontração, o dançar despadronizado e, claro, buscamos curtir "as músicas" do ou dos carnavais!